(Voltar à 2ª parte - PEDRAS)

Recentemente, Dâmaso afasta-se do mundo das pedras e nasce uma quarta fase ainda em estado de germinação. Neurónios, sinapses, impulsos eléctricos, vilosidades intestinais. Não sabemos como se desenvolverá este percurso mas num rasgo psicanalítico pressentimos que será uma fase marcada pelo simbolismo, em que a razão e a emoção estarão intrinsecamente interligadas porque em paralelo aos neurónios cerebrais que simbolizam o intelecto e o racional, a mente e a lógica surgem as vilosidades do intestino, órgão que separa o puro do impuro, o que guardamos para nós e o que libertamos para o exterior (curiosamente na medicina chinesa o intestino delgado é o responsável a nível espiritual pela assimilação das ideias).

As telas de Dâmaso na sua pluralidade e dinâmica, com maior ou menor força, falam-nos das vicissitudes da condição humana, da imensa fragilidade e da imensa força que acompanham o ser humano desde o momento da sua concepção ao da sua incontornável decadência, dos seus percursos de luz e de sombra, das suas pluralidades e da sua unicidade última. Emersos nos labirintos, significados e simbolismos destas telas percorremos os nossos próprios abismos internos, surpreendemo-nos com as mensagens mais ou menos implícitas que Dâmaso nos transmite, e com as diferentes emoções que dois olhares sequenciais sobre um mesmo objecto podem despertar em nós e corremos o risco sério de reencontrarmos partes de nós que julgáramos para sempre perdidas.

Falámos da permanência do caracol ao longo do trajecto da artista, o caracol de concha em espiral, a espiral que poderá representar a dificuldade em subir, em aprender, em auto-aperfeiçoar-se, mostrando-nos que a evolução não se processa de uma forma rectilínea e constante. O caracol simbolizando a regeneração e re-iniciação, tomando uma realidade exterior, reconhecendo-a e interiorizando-a, na sua incessante digestão, na sua força criadora, deixando lastro visível, um mundo extensivo, na sua luta persistente em busca da luz, da mesma luz que emana de todas as telas de Dâmaso. Também ela, no final, encontrará a recompensa, a luz fria do sucesso e a luz interna, essa sim, intensa, quente e aconchegante.

Joana Miranda
Psicóloga/ Escritora
Dezembro 2006

 

 

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