Maria Dâmaso – Uma viagem dentro de nós

Não sou especialista em pintura nem crítica de arte e, assim sendo, as minhas palavras sobre a pintura de Maria Dâmaso serão, simplesmente, as palavras de alguém que observa com interesse o percurso artístico da pintora.

O que é desde logo óbvio para quem observa as telas que produziu desde os tempos da Faculdade de Belas Artes é que estamos perante um percurso que não é linear, mas antes um trilho sinuoso que se desenvolve numa espécie de rendilhado, em que dadas fases (considerando que de fases podemos falar) desaguam noutras, sem se desvanecerem na íntegra e em que nas novas fases que vão desabrochando subsistem elementos que marcaram as anteriores e que, por alguma razão, teimam em persistir. É assim que se compreende a persistência ao longo de todo o percurso de formas como o caracol e de formas femininas ou, ainda, a insistência na representação de processos como a germinação.

Assentando na premissa de que nos é possível falar de fases em relação ao conjunto da obra de Dâmaso, existiria uma fase inicial cujo nascimento coincidiria temporalmente com o final de Belas Artes em Lisboa, fase marcada por figuras planas, coloridas, diversas, divertidas, vivas: animais, flores, casas, naturezas-mortas, elementos da Natureza. Em algumas das telas é nítida a preocupação com o pormenor, com o detalhe, preocupação esta que marcará momentos bem posteriores do percurso. A diversidade de elementos retratados (e aqui a preocupação dominante é, de facto, o retratar da realidade) reflectirá a estimulação que a artista recebe do mundo exterior em toda a sua amplitude e multiplicidade. Dâmaso recebe os estímulos do mundo e devolve-nos esses mesmos elementos mediados pelo seu olhar e pelo poder da sua arte que nesta fase se adivinha em potência.

Segue-se uma fase de filtragem em que Dâmaso circunscreve deliberadamente o universo que nos transmite. Persistem os elementos da semente, do embrião e da flor e surgem telas que nos transportam para o universo dos livros de biologia vegetal. Mas há um tema que claramente domina a produção e esse tema, é sem dúvida, o mundo subaquático. São telas em que o azul é a cor dominante, telas marcadas por jogos harmoniosos de luz e de sombra, em que cardumes de peixes coloridos ou peixes isolados, algas ou seres luminosos nos fazem mergulhar na tranquilidade de um mundo situado a anos luz do nosso mundo, do mesmo mundo em que Dâmaso estava embrenhada na primeira fase da sua pintura. É neste mundo azul, de luz e de sombra, tranquilo e distante, povoado de corais, anémonas e algas que Dâmaso se refugia durante alguns anos do seu percurso artístico. É uma fase caracterizada por uma pintura tranquila, serena, esteticamente atraente, equilibrada, pontuada por recurso à simbologia masculino/feminino e pelo sucesso na criação de um ambiente intimista. As telas finais desta fase, ao introduzirem elementos de erupção vulcânica e mares de lava vermelha neste universo de tranquilidade infinita que poderíamos pensar eterno, fazem claramente prever o epílogo da mesma de que elas serão as últimas testemunhas.

(Continuar para a 2ª parte - PEDRAS)