Maria Dâmaso vive desde muito cedo a sua vida junto à intimidade da pintura. Desde a sua cidade de Portalegre dos inícios escolares e dos ateliers onde se descobre o encaminhar do próprio futuro, até à inevitável mas sempre útil formação na escola de Lisboa, vai um percurso que logicamente se prolonga numa constante verificável: a pintura.

Trabalha. Expõe. Ensina. E isto acontece pela sua própria vontade, pela força determinada com que assume a actividade pelo gosto, pela paixão.

Dum quadro a outro nenhum pintor sabe medir o tempo ou distância, nem o desejo que fica apegado, nem os subterrâneos difíceis que fragilizam… O trabalho, uma obra (como gostosamente se diz) é fruto destas condições e acrescidas do registo dito que é o esforço do pintor para se dizer.

Maria Dâmaso diz-nos do seu gosto de aprofundar, de se aproximar da natureza na sua constituição, no seu processo de desenvolvimento, dos sentidos vitaisatravés de um meio difícil, o mar, desconhecido de muitos, encantatório no seu profundo mistério.

As paisagens são mergulhadas duma luminosidade inventada, num mar de azuis, onde as formas orgânicas ganham a sua plenitude, o seu recorte e o seu movimento. Uma composição nítida define os campos dos diversos elementos e os habitantes naturais, os peixes, definem as linhas de força de percursos.

É particularmente curioso este interesse, este quase vazio, inabitado e insondável seja para Maria Dâmaso, revelador da procura dum espaço, duma linguagem, sobretudo dum clima onde se encontre o seu desejo de trabalho.

Todo o tema é pretexto e motivo, mas subjacente, é necessário que a pintura se instale e a sua aparência seja forte e realizada para que o seja. Maria Dâmaso sabe-o e o seu esforço e o que consegue são definidores do gosto da pintura, do gosto de pensá-la e realizá-la.

A intimidade, jogo fundamental do entendimento, que suponho tenha frutuosamente acontecido nos tempos dos ateliers de Portalegre, acompanha-a hoje e não vai certamente deixá-la porque já faz parte da sua maneira de estar no mundo.

Rogério Ribeiro
Dezembro de 1999